no boomerang do surf

22:19

Recordo-me daquela onda perfeita, direita a nós. Uma parede de água que sobe pelo horizonte acima e me dizes "rema, rema, rema" com voracidade e o meu pequeno corpo se transforma numa lontra obesa que não sabe sair do lugar. "Para a próxima rema quando eu te disser...", dizes-me num tom imperioso. E eu, lá focada no inconstante mar, me sento na prancha em exercícios inconsequentes de pilates, força e equilíbrio penso eu, realmente devia ter dado mais atenção às aulas de pilates, lá me consigo estabelecer no poder abdominal e sinto-me vencedora, agora só falta remar, remar quando me ele disser "rema, rema, rema." Ponho-me em posição de ataque, atiro as pernas para trás, contraio qualquer musculo traseiro que possua, lombar curva em sentido contrário ao costume, e remo. "Rema, rema, rema" vem de lá do outside a voz de quem sabe o que diz, e eu ponho-me a jeito para me deixar levar pela onda. É só espuma, mas na minha cabeça consigo imaginar-me em meio metro de água curva, a deslizar em velocidade crescente na grande tábua de passar a ferro. Vai tudo a eito. Até a minha queda por falta de força da onda, porque é espuma, se bem que na minha cabeça concebo ondas do tamanho nazareno, meia desajeitada em pé, que curtido, apanhei uma onda, ai que isto escorrega, será que tenho wax, e a vontade de um bate rabo é maior do que a espuma, lá vou eu, água salgada, engulo uns quantos centilitros, blhec, está salgada e tu ao longe topas-me a léguas, atiras-me com um fixe e remas de novo para o outside, num tom demasiado cool, e eu penso, caramba também quero.
Vamos lá de novo nessa lição, remar, passar as espumas, ondas, paredes de água, set, outside, hang five, hang ten, a crowd e os peixes armados em carapaus de corrida que nos ultrapassam à velocidade do mar, no boomerang do surf.



Sushi do Dia

A nossa visão só se torna clara quando conseguimos olhar para dentro de nós. Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta.
Carl Jung

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